quarta-feira, 18 de maio de 2016

Roupas pretas, meias pretas e mostarda.

Havia sido um porre monumental, o dia todo bebendo, iniciando os trabalhos às 11 da matina, já se aproximando da meia noite, alguns dos guerreiros da manhã continuavam de pé, eu era um deles. Jogávamos Poker, a maioria já havia ido embora, restavam cinco de nós, eu bebericava vodca e cerveja, alternava e estava levando de forma totalmente incrível, havia bebido feito um animal, mas aquele era o meu dia, eu estava bem, estava vivo e aquele dia em especial, havia algo que me deixava sóbrio independentemente da quantidade de álcool que mandasse para o meu organismo.

Fizemos uma reunião na casa do Jorge, havíamos combinado com um mês de antecedência, seria uma reunião como nos velhos tempos... Andrei, Fernando, Bruno, Vitor, Carlos, Gabriel, Theo, Pedro, Elias, Paty, Rafaela, Jana, Deise, Cris, Roberto Toda a turma, algumas namoradas, namorados, Theo e Jana casados, afinal ela tirou a virgindade dele e ele acabou ficando com ela até hoje, quase 9 anos e eu. Marlon, beirando a idade de Cristo, sabendo das coisas, sendo um franco atirador no ápice de sua mira. 

O dia seguiu de uma forma como há muito não rolava, citávamos Bukowski, Kafka, Max Wilson e outros, riamos, bebíamos, fumávamos e ouvíamos música. Só havíamos ficado eu, Fernando, Elias e o Jorge que era o dono da casa. Jogávamos e ouvíamos Husker Du.

- Porra, cansei de jogar, vamos só beber! – Disse Jorge

Assenti com a cabeça, Fernando se levantou e quase caiu, sentou no sofá gargalhando e dormiu.

- Jorge, como você está? – Perguntou Elias, que ainda se mantinha inteiro.

- Estou bem mano, 1 mês solteiro, sem chateações, festas e bocetas novas.

- Porra, isso é ótimo, mas eu pensei que você estava zoado, eu pensava que você gostava dessa.

- Mano, eu gosto de quem eu estou, algumas suporto mais tempo, outras menos, mas no geral, eu sou o amor e amo todas!

- E você Marlon?

- Na mesma mano, eu continuo solteiro e estou bem comigo, só gostei uma vez e me destruiu totalmente. – Respondi.

- Era aquela mina do Telemarketing, de anos atrás? Ainda essa?

- Sempre essa mano, ainda me lembro todos os dias.

- Caralho mano, como assim? Não desencanou?

- Claro que desencanei, hoje em dia se ela aparecesse, não iria querer nada, iria dar um oi e ir embora, ela me quebrou duas vezes, não tenho mais culhão para uma terceira.

- Mas então como você diz que lembra dela todos os dias?

- Sempre que eu vejo o verde, lembro dos olhos dela, vejo cabelos cacheados, lembro dos cabelos dela, calço minhas meias e roupas pretas, me lembro dela, como mostarda, lembro dela.

- Como assim?

- Como assim o que?

Jorge dormia, sentado na cadeira, a bituca do cigarro havia caído no chão, o copo de vodca, pela metade estava ao seu lado, me levantei e peguei, virei numa talagada, fui a cozinha e peguei duas latas de cerveja, dei uma para o Elias.

- Anda mano, me explica!

- Explicar o que?

- Qual o motivo da meia e roupa preta te lembrar ela!

- Eu sempre curti roupa, meia preta e mostarda, eu mostrei para ela como isso era um dos ápices de vida.

- Caralho mano, você realmente ama essa mina.

- Vou amar sempre, isso que me quebra, mas já percebi que isso nunca vai acontecer.

- Você nunca mais falou com ela?

- Depois do fim, duas vezes, uns 3 anos depois de terminarmos, nos falamos por 1 mês, nos vimos 
duas vezes, mas ela namorava e optou por ficar com o namorado, depois de uns 2 anos, me ligou para pedir desculpas, disse que precisa saber se eu iria desculpar.

- E o que você fez?

- Desculpei, diabos, era a única coisa a fazer, ela foi importante demais, eu vivi um grande amor, que durou pouco, foi rápido demais, eu penso o porquê deixei isso acontecer, que merda, puta merda... Que raiva.

- Cara, eu pensei que estava fodido, mas você. Bem foda.

- Pode crer. Virei a minha lata em uma única talagada, levantei e fui buscar outra.

Aproveitei para calibrar mais um copo de vodca. Voltei para sala e o Elias estava apagado, só eu havia resistido, fui para sacada, acendi um Lucky Strike, traguei e soltei. Pensei nela, no seu sorriso e em seu cheiro, às músicas sempre em sintonia, as conversas, as risadas, as passadas de mão o sexo, senti falta de tudo isso, será que um dia eu vou descobrir como é viver ao lado dessa pessoa? Talvez eu nunca descubra. Eu vivo, vivo bem, passei 6 meses com ela, já passei 3 décadas sozinho. Fiquei ruim muito tempo, um dia me levantei e voltei a viver, simples assim.